LOOSERS

Fotografias por Filipe Dâmaso Saraiva / edit José Miguel Rodrigues
Última sessão do Mana, mas a nossa história não fica por aqui. Iniciamos agora a contagem decrescente para o arranque da segunda fase deste projecto, que consiste em apresentar ao vivo na cidade do Porto cada um dos nossos ilustres convidados. Esta série de concertos terá a forma de uma mensalidade n’ O Meu Mercedes É Maior Que O Teu, ocorrendo sempre na primeira sexta-feira do mês ao longo de 2012. Mais do que isto não podemos por agora adiantar. Mantenham-se atentos, em breve vão começar a chover datas por aí.
Para fechar, os Loosers. Reduzidos a duo com a saída de Tiago Miranda, os Loosers estão agora a começar de novo. Os ensaios gravados em Setembro passado que aqui apresentamos ilustram-no bem. A entrevista com José Miguel Rodrigues esclarece todas as nossas dúvidas e dá-nos boas pistas para o futuro.
M.: Via Discogs contabilizei um total de 15 edições (!) para os Loosers lançadas entre 2003 e 2008. O ano de 2008 foi particularmente sintomático do acelerado ritmo editorial que sempre caracterizou o grupo, com 4 edições a serem lançadas no espaço de poucos meses. No entanto, a partir daí os Loosers entram num silêncio quase absoluto, não apenas ao nível de discos, mas também ao nível de actuações. O que mudou?
J.M.R.: Tudo o que aconteceu nos Loosers foi sempre espontâneo e necessário, nunca houve uma causa e muito menos uma imposição de qualquer ritmo editorial. Como tocávamos muito e quase sempre coisas diferentes, sentíamos que não podíamos deixar de fazer os discos, isto numa altura em que era viável e excitante a banda tratar da sua própria produção e distribuição a todos os níveis. Além disso, vivíamos num clima de novidade. Principalmente nos primeiros anos estava a surgir algo de novo que depois se foi instalando. A comunidade aceitou-nos como parte importante disto desde o início, esse “acolhimento” saltava à vista nos concertos não só por cá , e isso motivava-nos bastante.
Depois algumas coisas foram mudando, ficámos com menos tempo e com a necessidade de rentabilizá-lo melhor, o que levou cada um a dedicar-se mais a outros assuntos. Entretanto houve alguma falta de acordo sobre o que seria o nosso novo disco e essa indecisão arrastou-se dois ou três anos, mas isso foi o menos importante.
M.: Embora o grupo nunca se tenha fechado em si mesmo, a formação base foi sempre fundamentalmente um trio. Que implicações tem agora a saída do Tiago Miranda?
J.M.R.: O Tiago foi importantíssimo nos Loosers, não só criativamente mas também pelo seu empenho durante muito tempo em pôr as coisas a andar, nomeadamente com a Ruby Red. É claro que muita coisa mudou com a sua saída, mas ainda não avaliámos bem isso, nem pensamos no assunto. Eu e o Rui continuamos a tocar, estamos a experimentar coisas novas, a adaptar os processos, e temos tocado com outras pessoas também.
M.: A meu ver, a Ruby Red foi a mais importante editora já alguma vez criada em Portugal. Não restringindo o seu catálogo a território nacional, a editora projectou um olhar universal lançando novos músicos como Valerio Cosi ou recuperando velhas glórias como Michael Yonkers. Enquanto atento seguidor da actividade da Ruby Red, para mim foi particularmente revelador ouvir os três títulos relacionados com Ed Wilcox: Bushman Yoga da Arthur Doyle’s Free Jazz Soul Orchestra, Flower Footed Ghost dos Temple of Bon Matin, e Those Are Pearls That Were His Eyes de Charles Cohen & Ed Wilcox. Aquilo que os Loosers descobriram e partilharam através da editora foi também moldando o caminho do grupo?
J.M.R.: A Ruby Red foi uma excelente forma que o Tiago arranjou para se envolver ainda mais com música livre. Ainda bem que o fez, e tenho muita pena que não haja mais mercado para esta editora e para esta música.
A música que se vai ouvindo e outras experiências que temos vão-nos influenciando na sala de ensaios mais ou menos conscientemente. Os Loosers sempre foram muito permeáveis, embora com convicções firmes. A dada altura levámos a extremos a liberdade criativa, o que até nos custou alguns fãs, mas isso nunca foi resultado da política da Ruby Red nem de outra editora. Acho que tudo deriva de tudo, tranquilamente.
M.: A princípio a Ruby Red serviu sobretudo para lançar discos dos Loosers. Contudo, a partir de 2006 o grupo encetou uma autêntica viagem por algumas das mais interessantes editoras do underground universal, tais como Qbico, Headz, Troglosound, Not Not Fun, Woodsist, Release the Bats, Our Mouth, Fuck It Tapes ou Meudiademorte. Porque é tão difícil encontrar os vossos discos nas lojas em Portugal?
J.M.R.: As edições foram pequenas, não houve encomendas e nós também não andámos a impingir os discos às lojas. As vendas nos concertos também nunca foram numerosas, especialmente por cá. Os discos criativamente mais formatados e que correspondem ao conceito de uma “boa gravação” vendem-se melhor, mesmo aos públicos supostamente receptivos a outras aventuras. Tenho ideia que isto se acentua ainda mais em Portugal.
Restam-nos algumas cópias em casa, quem quiser pode simplesmente escrever-nos a perguntar. E acho que há qualquer coisa à venda na Flur ou na Discogs, por exemplo.
M.: Têm planos para regressar aos discos num futuro próximo?
J.M.R.: Para já estamos a tocar com o Jerry The Cat, que já não era vocalista há décadas (literalmente). Vamos começar a gravar ainda este ano. Temos algumas propostas para edição e distribuição, mas ainda não está tudo afinado.